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Cláudio Osti

O Dia em que a Política Foi para as Cucuias

3 comentários

por Almir Escatambulo

Olho para o plenário de Brasília, ou para qualquer câmara municipal desse Brasil profundo, e o que vejo não são homens públicos; são corretores de privilégios. Virou um balcão de negócios escusos, um eterno “toma lá, dá cá” rasteiro, onde a dignidade humana é liquidada em nome de uma emenda parlamentar ou de um cargo de terceiro escalão. Que saudades da Grécia! Que saudades de um tempo que não vivi, mas que sinto pulsar como uma ferida aberta na nossa história recente.

A palavra “política” hoje virou um palavrão, um esgoto verbal. Mas ela nasceu limpa, lá na pólis grega. Aristóteles — esse velho sábio que os engravatados de hoje provavelmente acham que é ponta-esquerda de algum time do Nordeste — já dizia que o homem é um animal político. E o que isso significava? Significava que fazer política não era se filiar a uma agremiaçãozinha qualquer, a um partido de aluguel criado para sugar o fundo partidário. Significa, no sentido mais puro, o exercício da cidadania. O sujeito era escolhido entre os seus pares para uma missão quase sagrada: olhar para os problemas da cidade, para a vida comum, para o destino coletivo.

Hoje, o ideal aristotélico foi para as cucuias. O sujeito se elege e, no minuto seguinte, sofre uma metamorfose kafkiana: deixa de ser o vizinho da esquina e passa a se considerar a “elite da sociedade”. Ganha carro oficial, tapete vermelho, assessores para carregar a pasta e uma arrogância blindada que o afasta do chão da realidade. Ele não anda a pé. Ele não sabe o que é uma calçada esburacada.

Fazer política de verdade, meus amigos, deveria ser um ato de obsessão com o cotidiano. O verdadeiro político deveria ser aquele cara genuinamente preocupado com a sua rua. Aquele sujeito que não dorme porque sabe que o cadeirante do bairro não consegue cruzar a avenida por falta de uma rampa decente, por pura falta de acessibilidade. Política é a indignação com a falta de investimento público que condena uma região inteira ao abandono, enquanto os palácios governamentais reluzem em mármore. O político deveria ser, por definição, o megafone da população, a voz de quem não tem voz, o zelador do bem comum.

Mas a nossa política virou uma feira de vaidades e compadrismos. Uma bagunça institucionalizada onde o cidadão é apenas um detalhe estatístico de dois em dois anos. Precisamos resgatar a urgência das calçadas, a dignidade dos transportes, o respeito à calçada da esquina. Precisamos parar de eleger deuses de barro e começar a escolher servidores da comunidade. Enquanto a política for o caminho mais rápido para a riqueza pessoal e não para o saneamento básico, continuaremos sendo um país do futuro com o esgoto correndo no presente. A verdadeira política é local, é humana, é a arte de cuidar do outro — o resto é apenas a velha e carcomida politicagem.

*Almir Escatambulo é cientista social e colaborador do Portal

*Os artigos assinados não necessariamente refletem a opinião do Portal

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3 comentários

  • Há Lagoas

    A busca por privilégios está no DNA de nossos políticos desde o início de nossa história tupiniquim! E essa desfaçatez acomete tanto a esquerda quanto a direita! Entretanto, o mais sintomático dessa tragédia é vermos o judiciário nesta mesma corrida frenética — e não apenas pelos privilégios, mas pelo enriquecimento! E quem mais padece com isso é aquela que deveria ser sua razão de existência… Pobre Justiça! E na minha terra natal existe um ditado para isso: “farinha pouca, meu pirão primeiro”.

  • José A. Moisés

    Almir, seu texto é muito ingênuo.
    Ao idealizar a política como se a corrupção fosse um desvio recente e bastasse trocar os políticos para recuperar a virtude pública.
    Invoca a Grécia antiga sem sequer considerar que aquela democracia excluía mulheres, escravizados e estrangeiros. Cobra políticos preocupados com calçadas, mas ignora que a política é também disputa de interesses, poder, orçamento e projetos de sociedade.
    O problema não é apenas o político que se corrompe, mas o sistema que permite, incentiva e, muitas vezes, recompensa determinadas práticas.
    Transformar políticos em servidores abnegados é um belo desejo, acreditar que isso se resolve com indignação moral é simplificar demais uma realidade complexa.
    A política não foi para as cucuias porque deixou de ser pura. Talvez nunca tenha sido. O desafio é construir instituições capazes de limitar os abusos, fiscalizar o poder e fazer prevalecer o interesse público.
    Afinal, Almir, com todo o respeito, saudade de uma democracia idealizada não substitui a compreensão crítica da democracia real. E reduzir a crise política a uma questão de caráter individual é ignorar justamente as estruturas de poder que você, como cientista social, deveria ajudar a compreender.

    • Almir Escatambulo

      Agradeço a crítica ponderada e a oportunidade de aprofundar um debate que, longe de ser ingênuo, toca no cerne da própria teoria política. A dicotomia que você propõe entre o realismo estrutural e a aspiração moral é clássica, mas a história do pensamento político nos mostra que as estruturas institucionais e a conduta individual não são excludentes; na verdade, elas se pressupõem mutuamente.
      Quando provoco a reflexão sobre a postura ética e o zelo pelas demandas cotidianas — como o cuidado com o espaço público e as calçadas —, não ignoro a complexidade do orçamento ou da disputa pelo poder. Em vez disso, resgato o diagnóstico de Alexis de Tocqueville. Em sua análise sobre a experiência democrática, ele demonstrou que é justamente nas pequenas comunas e nos problemas locais que o cidadão exercita o “músculo” da liberdade. Para Tocqueville, o envolvimento com a realidade imediata é o principal antídoto contra o individualismo apático, que isola os homens e serve de combustível para o despotismo.
      A exigência de virtude e a própria indignação moral, longe de serem simplificações ingênuas, encontram amparo em Montesquieu. Em Do Espírito das Leis, ele estabelece com clareza que o princípio motor da república é, fundamentalmente, a virtude cívica — entendida como o primado do interesse público sobre o particular. Montesquieu nos adverte que, quando essa virtude fenece, as melhores leis tornam-se inúteis e o Estado se corrompe a partir de dentro. Portanto, cobrar o caráter do político não é ignorar o sistema, mas vigiar a força moral que o sustenta.
      É indiscutível que a política é uma arena de forças, como você bem pontua. Nicolau Maquiavel, o pioneiro do realismo político, despiu o poder de suas ilusões teológicas, mas o fez para alertar que a sobrevivência de uma república livre depende da virtù de seus líderes e de seu povo para conter a tendência natural das instituições à corrupção e à decadência. Da mesma forma, Max Weber, ao formular a célebre distinção entre a ética da convicção e a ética da responsabilidade, não anula o valor dos ideais. Weber nos lembra que a política é uma atividade que exige vocação e que aquele que carece de convicções profundas — daquela indignação que move o espírito — jamais terá a têmpera necessária para moldar a dura realidade das estruturas de poder.
      Por fim, a própria engenharia institucional e o limite aos abusos que você defende com tanta propriedade só encontram legitimidade se estiverem ancorados no propósito que John Locke conferiu ao contrato social: a preservação da confiança (trust). Para Locke, os governantes são meros delegados que devem agir em conformidade com o bem comum; quando o caráter do governante falha e a confiança é sistematicamente traída, o próprio pacto institucional perde sua razão de ser.
      Minha intenção ao escrever não é idealizar um passado idílico ou ignorar as profundas exclusões da pólis grega, mas sim reafirmar que as instituições não são entidades abstratas: elas são feitas e operadas por pessoas. Tentar consertar o sistema ignorando o debate sobre o caráter dos agentes públicos é apenas transferir o vício de uma estrutura para outra. A compreensão crítica da democracia real exige que olhemos para as engrenagens do poder, sim, mas sem esquecer que o combustível que as move ainda é a conduta humana.

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